POÉTICA / STEATMENT

A imagem nunca foi neutra. Ela escolhe, enquadra, hierarquiza e determina quem permanece visível e quem pode desaparecer. Minha produção artística nasce da recusa dessa neutralidade e da convicção de que disputar imagens é disputar formas de existência.

Trabalho com cinema, teatro, fotografia, artes visuais e educação como expressões de uma mesma investigação. Não compreendo essas linguagens como territórios separados, mas como diferentes maneiras de construir memória, produzir conhecimento e imaginar outros mundos. O gesto artístico, para mim, não é ilustrativo nem decorativo: é uma forma de intervenção no campo simbólico.

As narrativas negras constituem o fundamento dessa pesquisa. Não surgem como reação ou tema, mas como origem epistemológica, ética e estética. Operam pela oralidade, pelo mito, pela ancestralidade e pela experiência vivida, propondo outras formas de perceber o tempo, o corpo, a memória e a história. Interessa-me criar imagens capazes de romper a lógica colonial da representação e afirmar a complexidade das existências negras para além dos estereótipos e das ausências produzidas pelo olhar hegemônico.

Cada linguagem amplia essa investigação de maneira própria. No teatro, o corpo torna-se presença, arquivo e enunciação. Na fotografia, a imagem deixa de capturar para revelar camadas de existência que escapam ao olhar simplificador. No audiovisual, memória, mito e experiência social reorganizam o tempo narrativo, abrindo espaço para outras formas de ver, ouvir e sentir.

A mudança de Marcos Costa para Uê Puauet integra essa mesma poética. Não representa ruptura, mas um gesto de descolonização da autoria e da identidade, compreendendo o nome como linguagem, escolha e território político.

A educação também faz parte desse processo criativo. Formar olhares é produzir mundo. Compartilhar conhecimento, desenvolver processos formativos e construir experiências pedagógicas são desdobramentos da mesma prática artística, porque criar e aprender participam do mesmo movimento de transformação.

Minha obra não pretende apenas representar outras histórias. Procura construir outras possibilidades de imaginar, narrar e existir. É um trabalho em permanente movimento, onde memória e invenção caminham juntas, fazendo da arte um espaço de resistência, criação e futuro.