As obras aqui reunidas fazem parte de uma pesquisa continuada sobre imagem, narrativa, mito e política. Em diferentes linguagens, operam como dispositivos de memória, enfrentamento simbólico e construção de sentidos afro-diaspóricos no presente.
Audiovisual
Curtas-metragens, documentários e videoartes de caráter ensaístico, com atuação em direção, roteiro e concepção estética.
- “O Enegrecer de Iemanjá e a subtração do Sagrado Afro” (2025)
- Concepção/Roteiro e Direção
- Linguagem: Documentário Ensaístico
- Duração: 15m
- Eixos: Mito afro-brasileiro · Ancestralidade · Imagem política · Decolonialidade.
O Enegrecer de Iemanjá é um curta-metragem que articula mito, imagem e política a partir de uma abordagem ensaística. A obra investiga o sagrado afro-brasileiro como campo de resistência simbólica, tensionando representações coloniais e afirmando a presença negra como força estética e política. O filme integra uma pesquisa autoral sobre as interrupções históricas do axé e o uso do audiovisual como linguagem crítica, onde corpo, som e imagem operam como dramaturgia expandida.
“120 Anos da Abolição da Escravatura: Um Retrato Londrinense” (2008) Filmes 1 e 2.
- Concepção/Roteiro e Direção
- Linguagem: Documentário
- Duração: 2x 15m
- Eixos: Narrativas negras · Memória afro-brasileira · Abolição como processo inacabado · Racismo estrutural · Testemunho
- Os filmes (1 e 2) são documentários que constroem narrativas negras a partir do cotidiano da população afro-brasileira de Londrina em 2008, no marco dos 120 anos da abolição. A obra desloca o olhar da celebração oficial para a experiência vivida, evidenciando a abolição como processo inacabado e o racismo como permanência estrutural. Por meio de depoimentos e da participação da militante Yá Mukumbi, o filme se afirma como exercício de memória, testemunho e afirmação política.
Salami (2011)
- Concepção/Roteiro e Direção
- Linguagem: Vídeo Clipe, Vídeo Arte
- Duração: 5m
- Eixos: Narrativas negras · Mulher negra como sujeito narrativo · Imagem política · Corpo e presença · Decolonialidade do olhar.
é um videoclipe concebido a partir da valorização da mulher negra como sujeito narrativo e estético. A obra constrói sua força por meio de um processo gradual, no qual a presença feminina ganha complexidade e centralidade ao longo do tempo da imagem, recusando representações imediatas ou estereotipadas. Com uma abordagem próxima da videoarte, o trabalho propõe uma outra economia do olhar, afirmando o corpo negro feminino como lugar de narrativa, autonomia e potência simbólica. O videoclipe integra a pesquisa autoral de Marcos Costa (Uê Puauet) sobre narrativas negras, imagem política e decolonialidade.
Documentário Sócio Ambiental
Sociedade, Coleta, Lixo e Seleção (2011)
- Função: Concepção, pesquisa e direção
- Linguagem: Documentário
- Eixos: Questões socioambientais · Produção de resíduos · Trabalho invisibilizado · Sustentabilidade · Educação ambiental
- É um filme documentário que aborda as consequências ambientais da produção de lixo pelo ser humano e a urgência da reciclagem como prática coletiva e política. A obra lança um olhar crítico sobre o consumo, o descarte e o impacto desses processos na vida cotidiana, tendo como eixo narrativo a atuação de catadores de materiais recicláveis. Sem recorrer a discursos didáticos, o filme propõe uma reflexão sobre sustentabilidade, responsabilidade social e os modos de vida atravessados pela economia do lixo, evidenciando relações estruturais entre ambiente, trabalho e exclusão.
Fotografia
A fotografia, em minha prática, não opera como registro neutro da realidade, mas como campo de disputa simbólica. Interesso-me pela imagem enquanto construção histórica e política, especialmente na forma como corpos negros foram representados, silenciados ou desumanizados ao longo do tempo. Meus projetos fotográficos articulam pesquisa, produção de imagem e ação formativa, tensionando repertórios visuais coloniais e afirmando novas possibilidades de presença, memória e narrativa.
Em 2012, como trabalho de conclusão do curso de Artes Visuais, desenvolvi o ensaio fotográfico Negras Faces em Fotos, realizado com mulheres negras da cidade de Londrina. O projeto teve como eixo central a valorização da presença, da visibilidade e da beleza da mulher negra, em contraposição aos apagamentos e estereótipos historicamente construídos pela mídia.
O ensaio foi acompanhado por um estudo teórico que investigou, a partir da análise de importantes revistas de circulação nacional, os modos como a imagem da mulher negra era sistematicamente invisibilizada ou reduzida a representações estereotipadas. A pesquisa evidenciou como os discursos visuais midiáticos contribuem para a manutenção do racismo no Brasil, especialmente no campo da construção simbólica da imagem.
O trabalho foi convidado a integrar uma mostra cultural na cidade de Barcelona, além da apresentação do conteúdo teórico na Associação de Pesquisadores Brasileiros da Catalunha (APEC) que foi viabilizado pelo Prêmio de Intercâmbio Cultural do Ministério da Cultura. A exposição também foi apresentada na Universidade de Paris 8, em Paris.
Em 2014 e 2015 o projeto Negras Faces em Fotos percorreu escolas da cidade de Londrina, através da exibição das fotografias e palestras de ações formativas, abordando criticamente o papel das imagens midiáticas na reprodução do racismo e dos estereótipos raciais. O projeto alcançou um público aproximado de 30.000 pessoas.
O projeto 130 Anos de Abolição da Escravatura: O Grito Negro Londrinense foi concebido em 2018 como uma ação artística e política para marcar o aniversário de 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Estruturado a partir de exposições fotográficas e atividades formativas, o trabalho propõe uma reflexão crítica sobre os sentidos históricos e contemporâneos da abolição.
Como base conceitual, o projeto desenvolveu uma pesquisa iconográfica e iconológica sobre as representações visuais do africano e do afrodescendente no período pré-abolição, evidenciando a construção de imagens marcadas pela desumanização, uma vez que essas representações se limitavam a registrar indivíduos apenas na condição de escravizados. A autoria dessas imagens, frequentemente atribuída ao fotógrafo, é tensionada como parte do próprio sistema de produção do olhar colonial.
Em contraponto a esse repertório histórico, a exposição incorporou fotografias de afrodescendentes da cidade de Londrina, produzidas como gesto de resistência, inversão de paradigma e enfrentamento ao racismo. Os modelos e as modelos londrinenses foram fotografados expressando a ação de um grito, símbolo de afirmação, presença e ruptura com as imagens silenciadas do passado.
A exposição foi realizada em novembro de 2018 no Centro Cultural SESI de Londrina e circulou por 10 escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio da cidade. Em 2019, o projeto teve continuidade com a realização da exposição em mais 10 escolas públicas da rede estadual de ensino.
Público estimado: 7.850 pessoas.
Teatro
O teatro, em minha prática, é um espaço de dramaturgia expandida, onde corpo, palavra, mito e história operam como campos de disputa simbólica. Minhas criações teatrais partem de narrativas negras, da oralidade e da memória afro-diaspórica para tensionar silenciamentos históricos e afirmar o palco como lugar de presença, educação e ação política.
SABÁ — MITO, HISTÓRIA E ARTE NEGRA (Espetáculo teatral com vídeo-cena · 2006)
Função:
Concepção artística, pesquisa temática africana, dramaturgia e direção
Linguagem:
Teatro · Vídeo-cena (projeção audiovisual e encenação ao vivo) · Teatro educativo · Performance
Eixos:
Narrativas negras · História e mitologia africana · Educação antirracista · Imagem política · Teatro e audiovisual · Formação de imaginário
Sabá — Mito, História e Arte Negra é um espetáculo teatral que articula encenação ao vivo e recursos audiovisuais como estratégia estética, narrativa e pedagógica. A obra investiga a relação entre mito, história e arte negra, propondo uma reflexão crítica sobre os apagamentos da presença africana na construção dos imaginários históricos e culturais.
O espetáculo parte da pesquisa sobre referências históricas e simbólicas africanas, compreendendo o mito não como ficção, mas como estrutura de pensamento, memória e conhecimento. A linguagem da vídeo-cena surge como elemento central da encenação, ampliando a experiência sensorial e aproximando o teatro do universo visual dos jovens estudantes.
Concebido como ação artística e educativa, o projeto priorizou a circulação em escolas públicas, articulando apresentações e ações formativas que compreendem o teatro como espaço de construção crítica do olhar. A presença de artistas negros em cena e a centralidade da história africana operam como gesto afirmativo, tensionando estereótipos e disputando narrativas no campo simbólico.
Sabá inaugura, dentro do percurso do artista, o uso sistemático do audiovisual integrado à cena teatral, consolidando uma pesquisa estética que atravessará trabalhos posteriores e ampliará as possibilidades de diálogo entre teatro, imagem e educação.
UMA MULHER CHAMADA ROSA EGIPCÍACA (Espetáculo teatral e projeto formativo – 2007–2008)
Função:
Concepção artística, pesquisa temática africana, dramaturgia, direção cênica e coordenação pedagógica
Linguagem:
Teatro · Teatro educativo · Teatro afro-brasileiro · Vídeo-cena · Música e percussão · Formação artística
Eixos:
Narrativas negras · História africana · Educação antirracista · Teatro e formação de público · Cultura africana · Corpo negro em cena · Imagem política
Uma Mulher Chamada Rosa Egipcíaca é um espetáculo teatral desenvolvido no contexto do Grupo Cabula de Teatro Afro-brasileiro, articulando criação cênica, pesquisa sobre cultura africana e processos formativos. A obra parte da necessidade de enfrentar os apagamentos históricos e simbólicos sobre a presença africana e afrodescendente, utilizando o teatro como linguagem de reflexão, educação e disputa de imaginários.
O projeto foi estruturado a partir de oficinas de teatro, percussão e estudos sobre a temática africana, integrando criação artística e formação coletiva. A dramaturgia e a encenação dialogam com recursos audiovisuais e musicais, compondo uma cena híbrida que articula corpo, som, imagem e narrativa como ferramentas pedagógicas e políticas.
A circulação do espetáculo priorizou escolas públicas da cidade de Londrina, acompanhada de debates e envio de material didático, compreendendo o teatro como espaço de formação crítica e ampliação de repertórios simbólicos. A presença de artistas negros em cena e a centralidade da história africana operaram como gesto afirmativo, tensionando resistências, estereótipos e silenciamentos ainda presentes no ambiente escolar.
O projeto também realizou apresentações abertas ao público geral, consolidando-se como uma experiência artística e educativa voltada à construção de novas formas de ver, narrar e compreender a cultura africana e afro-brasileira.
PIYE: O FARAÓ NEGRO (Espetáculo teatral com vídeo-cena · 2009)
Função:
Concepção, pesquisa histórica, autoria do texto e direção
Linguagem:
Teatro · Vídeo-cena (projeção audiovisual e encenação ao vivo) · Teatro educativo
Eixos:
Narrativas negras · História africana · Ancestralidade · Educação e formação de imaginário · Imagem política · Ações afirmativas · Teatro e audiovisual.
Piye: O Faraó Negro é um espetáculo teatral que articula encenação ao vivo e projeções audiovisuais para narrar a trajetória histórica de Piye, rei negro da Núbia que, no século VIII a.C., reunificou o Egito e protagonizou uma profunda revolução política, cultural e artística naquela civilização.
A obra parte de uma extensa pesquisa histórica para tensionar os apagamentos e distorções sobre a presença africana na construção das grandes civilizações antigas, propondo uma reconfiguração do imaginário histórico a partir de uma perspectiva negra e afrocêntrica. O espetáculo afirma a figura do faraó negro como símbolo de liderança, inteligência estratégica, espiritualidade e produção cultural.
Destinado prioritariamente a estudantes do ensino médio da rede pública, o projeto realizou 20 apresentações gratuitas em escolas públicas, ampliando o acesso ao teatro e à história africana por meio da linguagem artística. A proposta compreendeu o teatro como espaço de formação crítica, sem subordinar a criação à função didática, mas entendendo a arte como experiência transformadora.
A dimensão audiovisual do espetáculo foi desenvolvida em diálogo com processos formativos, envolvendo jovens aprendizes em situação de vulnerabilidade social na produção de imagens, integrando criação artística, educação e inclusão social. O projeto se insere no campo das ações afirmativas, dialogando com a valorização da memória africana e com o enfrentamento ao racismo no campo simbólico, histórico e cultural.
ANASTÁCIA — TEATRO POLÍTICO, PEDAGÓGICO E DE CONTESTAÇÃO (Espetáculo teatral · 2006)
Função:
Produção executiva, direção cênica, atuação, instrumentação musical e coordenação pedagógica (formação de público)
Linguagem:
Teatro político · Teatro educativo · Teatro afro-brasileiro · Música ao vivo · Performance cênico-musical
Eixos:
Narrativas negras · Mulher negra · História da escravidão e pós-abolição · Educação antirracista · Teatro e formação de público · Corpo negro em cena · Imagem política
Anastácia é um espetáculo teatral concebido como ação artística, política e pedagógica, tomando a figura histórica da escrava Anastácia como símbolo das violências sofridas por mulheres negras ao longo da escravidão e de suas permanências no Brasil contemporâneo. A obra estabelece um paralelo entre a trajetória de Anastácia e as vivências de mulheres negras da periferia da cidade de Londrina, evidenciando continuidades de opressão, silenciamento e resistência.
O espetáculo articula teatro, música ao vivo, canto e corporeidade afro-brasileira, dialogando com referências do Teatro Experimental do Negro, bem como com práticas de teatro político inspiradas em Bertolt Brecht e Augusto Boal. A dramaturgia foi construída de forma coletiva, compreendendo texto como tudo aquilo que se manifesta em cena: palavra, corpo, som, ritmo e imagem.
Premiado com o Prêmio de Teatro Myriam Muniz (2006), o projeto estruturou-se também como ação de formação de público, realizando apresentações gratuitas em escolas públicas de ensino médio, especialmente no período noturno. Cada apresentação foi acompanhada de mediações pedagógicas e debates, abordando racismo, gênero, representações midiáticas e cidadania, compreendendo o teatro como ferramenta de conscientização e exercício político.
O projeto ganhou destaque no cenário cultural local, sendo convidado para a abertura da Semana da Consciência Negra Zumbi dos Palmares, e consolidou-se como uma experiência de teatro engajado, onde criação artística, educação e enfrentamento ao racismo operam de forma indissociável.
O Grande Teatro do Mundo (2003)
Função: Concepção, pesquisa, dramaturgia, arte atuação e direção
Linguagem: Teatro de Bonecos e Palhaçaria
Eixos: Teatro, infância e narrativas negras · Educação · Formação de imaginário.
O projeto Teatro Infantil no Ensino Fundamental, realizado em 2003, foi concebido como uma ação artística e educativa voltada à formação de crianças da rede municipal de ensino de Londrina. O espetáculo priorizou narrativas centradas na história e na imagem do afrodescendente, afirmando o artista negro como contador de histórias negras e colocando o ator negro em exercício pleno de sua atuação.
A proposta teve como eixo o enfrentamento do preconceito e do racismo no ambiente escolar, compreendidos como construções culturais que limitam imaginários e formas de pertencimento. O projeto buscou fortalecer o imaginário da criança afrodescendente e ampliar os repertórios simbólicos das demais crianças, articulando teatro, educação e representatividade.
A criação foi inspirada em referências teóricas e históricas, como o livro Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar, de Eliane Cavalleiro, e a trajetória de Benjamin de Oliveira, primeiro palhaço negro do circo brasileiro. Utilizando as linguagens do palhaço e do teatro de bonecos, o projeto contou a história de Benjamin para o público infantil.
- Público 11.000 crianças
Congada de Chico Rei (2005, 2006, 2007 e 2008)
Função:
Concepção, dramaturgia, direção cênica, pesquisa cultural e coordenação pedagógica
Linguagem:
Teatro popular · Cultura afro-brasileira · Congado · Cortejo · Música e dança · Formação artística comunitária
Eixos:
Narrativas negras · Ancestralidade · Cultura popular afro-brasileira · Infância e formação de imaginário · Corpo negro em cena · Educação antirracista · Memória e rito.
Os projetos de Congado, desenvolvidos de forma continuada entre 2005 e 2008, articularam teatro, música, dança e ritual a partir da tradição afro-brasileira do Congado e da narrativa de Chico Rei. A proposta afirmou reis e rainhas negras no imaginário infantil, colocando o corpo negro como centro da cena e da narrativa, e compreendeu o Congado como prática artística, pedagógica e política de formação coletiva.
