Criar é um ato de necessidade.
Não nasce do conforto, nasce da urgência.
Daquilo que foi calado, interrompido, negado.
Minha arte existe porque houve silêncio demais.
Trabalho com imagem, corpo, palavra e som como quem disputa território. A imagem nunca foi neutra. Ela escolhe, enquadra, hierarquiza. Por isso, criar é intervir. É deslocar o olhar. É devolver presença a quem foi empurrado para a margem da história.
Caminho pelo audiovisual, pelo teatro, pela fotografia e pela educação sem aceitar fronteiras fixas. As linguagens se atravessam porque o mundo não é compartimentado. Tudo comunica. Tudo narra. Tudo carrega memória.
Por muito tempo, esse percurso foi assinado como Marcos Costa. Sob esse nome, a obra circulou, encontrou públicos, atravessou instituições. A adoção de Uê Puauet não apaga esse caminho — o radicaliza. É um gesto de descolonização do nome, da autoria e da própria ideia de identidade. O nome também é política. O nome também é escolha. O nome também é território.
As narrativas negras não surgem aqui como resposta, mas como origem. Elas não pedem autorização. Elas existem antes do enquadramento, antes do arquivo, antes da legenda. São narrativas de corpo, de mito, de oralidade, de ancestralidade viva. No teatro, elas ocupam a cena como presença irrecusável. No audiovisual, explodem o tempo linear e inventam outras formas de ver. Na fotografia, recusam a captura fácil e afirmam o direito à complexidade.
A educação atravessa tudo. Não como complemento, mas como princípio. Formar olhares é transformar o mundo. Disputar imaginários é disputar futuro. Estar em escolas, projetos e ações formativas é continuar criando — porque ensinar também é um gesto artístico.
Este trabalho não é arquivo morto. É arquivo em combustão. Um corpo em movimento. Um percurso que não busca consenso, mas consciência. Entre Marcos Costa e Uê Puauet, não há ruptura: há memória em estado de luta, continuidade em estado de invenção.
Minha arte não pretende agradar.
Pretende existir.
Pretende afirmar.
Pretende não desaparecer.
