A imagem nunca foi neutra.
Ela escolhe, enquadra, hierarquiza. Decide quem permanece visível e quem pode desaparecer e o valor dessa visibilidade. Minha produção artística nasce da recusa dessa neutralidade e da urgência em disputar o campo simbólico onde imagens, corpos e narrativas são historicamente organizados em privilégios.
Trabalho com imagem, corpo, palavra e som como quem ocupa um território. O gesto criativo, para mim, não é decorativo nem ilustrativo: é intervenção. Criar é deslocar o olhar, tensionar enquadramentos, devolver presença ao que foi silenciado, interrompido ou capturado por narrativas coloniais que permanecem no tempo.
Minha pesquisa articula audiovisual, teatro, fotografia, artes visuais e práticas pedagógicas como extensões de um mesmo corpo conceitual. As linguagens se atravessam porque o mundo não se apresenta em compartimentos. Tudo comunica. Tudo carrega memória. Tudo é atravessado por política.
As narrativas negras não surgem aqui como resposta reativa, nem como tema a ser representado. Elas são origem. São fundamento epistemológico, corporal e simbólico. Precedem o arquivo, a legenda e o enquadramento. Operam pela oralidade, pelo mito, pela ancestralidade viva, pelo corpo que insiste em existir apesar das tentativas históricas de morte e de apagamento.
No teatro, essas narrativas ocupam a cena como presença irrecusável, onde o corpo é arquivo e enunciação. No audiovisual, rompem a linearidade do tempo, recusam a lógica do progresso e inventam outras formas de ver, ouvir e sentir. Na fotografia, rejeitam a captura fácil e afirmam o direito à complexidade, à ambiguidade e ao não-consumo do corpo negro como imagem estereotipada.
Durante grande parte do meu percurso, a obra foi assinada como Marcos Costa. Sob esse nome, os trabalhos circularam, encontraram públicos, atravessaram instituições e se inscreveram em contextos formais de legitimação. A adoção do nome Uê Puauet não representa ruptura, mas radicalização. É um gesto político de descolonização da autoria, do nome e da própria ideia de identidade fixa baseada nos conceitos eurocêntricos. O nome também é linguagem. O nome também é escolha. O nome também é território em disputa.
A educação atravessa toda essa poética como princípio estruturante. Não como complemento, mas como fundamento. Formar olhares é produzir mundo. Disputar imaginários é disputar futuros possíveis. Estar em escolas, projetos formativos e ações pedagógicas é continuidade do gesto artístico, porque ensinar também é criar e aprender também é um ato político.
Este trabalho não se organiza como arquivo encerrado ou narrativa estabilizada. É arquivo em combustão. Processo em movimento. Um corpo que não aceita a imobilidade como destino. Entre Marcos Costa e Uê Puauet, não há apagamento: há memória em estado de luta, continuidade em estado de invenção.
Minha arte não busca consenso.
Não busca conforto.
Não busca autorização.
Ela insiste.
Ela afirma.
Ela se recusa a desaparecer.
