PERCURSO

Minha trajetória artística não foi construída a partir da escolha de uma linguagem, mas de uma pergunta que permanece a mesma há mais de duas décadas: como criar imagens e narrativas capazes de ampliar as formas de existência da população negra?

Foi no teatro que essa investigação começou a ganhar forma. A dramaturgia, a cultura popular e a oralidade revelaram o corpo como espaço de memória, identidade e resistência. Mais do que encenar histórias, interessava-me compreender como elas eram produzidas, transmitidas e transformadas ao longo do tempo.

Esse percurso conduziu naturalmente à fotografia. Em 2012, a criação de Negras Faces em Fotos marcou uma inflexão decisiva na minha pesquisa. Ao investigar a quase invisibilidade de mulheres negras nas principais revistas brasileiras, passei a compreender a imagem não apenas como representação, mas como um território de disputa simbólica. O projeto alcançou repercussão nacional e internacional, ampliando minha pesquisa sobre colonialidade, poder e os processos de legitimação artística.

A partir dessa experiência, o audiovisual tornou-se o espaço onde essas investigações puderam convergir. Cinema, fotografia, teatro, oralidade, memória e mito deixaram de existir como práticas independentes para constituir um único campo de criação. Cada filme passou a aprofundar questões que já estavam presentes nas obras anteriores, estabelecendo uma continuidade entre pesquisa estética, produção artística e reflexão crítica.

Ao longo desse percurso, a educação deixou de ser apenas um campo de atuação profissional para tornar-se parte da própria criação. Desenvolver processos formativos, dialogar com escolas, professores e comunidades significa compartilhar ferramentas para que outras pessoas também possam construir seus próprios repertórios visuais e narrativos. Criar e formar passaram a integrar o mesmo gesto.

Durante grande parte dessa caminhada, assinei meus trabalhos como Marcos Costa. A adoção do nome Uê Puauet não representa uma ruptura com essa história, mas seu aprofundamento. É a continuidade de uma trajetória que passa a afirmar, também no próprio nome, um posicionamento político, estético e epistemológico comprometido com a descolonização da autoria e das narrativas.

Hoje, essa investigação encontra na Iemojá Produções um espaço permanente de desenvolvimento. Cada obra nasce da anterior e aponta para a seguinte, formando um percurso em constante transformação. Mais do que produzir filmes, fotografias ou espetáculos, busco construir um conjunto de obras que dialogue com as memórias africanas e afro-brasileiras, questione os regimes de representação e contribua para ampliar os imaginários sobre as experiências negras contemporâneas.